sábado, maio 04, 2019

Inodoro


     Uma casa grande, uma família grande. Esta era formada por pai, mãe e quatro filhos. Os três mais velhos eram praticamente da mesma idade, a diferença não devia passar de quatro anos entre o primeiro e o terceiro. O caçula já era muito mais novo algo em torno de dezoito anos entre ele e o mais velho. Os pais eram bem sucedidos e já planejavam a aposentadoria. Fora o caçula, que estava na faculdade, todos os filhos trabalhavam.

     Como dito, a casa era grande. O casal não queria que seus filhos saíssem de casa e construíram uma residência que faria nunca terem essa vontade. A energia presente  quase sempre foi muito boa,todos se davam muito bem.

     A mãe era apaixonada por botânica, mas era alérgica a quase todas, senão todas, as espécies de flores. Não podia sentir o cheiro delas que um mal-estar a consumia. Devido a isso, moravam isolados longe de flores naturais. O pai, ciente da condição, fez um jardim belíssimo com flores de plástico. Estas eram réplicas quase exatas visualmente, e não exalavam cheiro algum. Quando criança, seu filho caçula odiava aquelas flores, não entendia o propósito de flores que não tinham cheiro.

     O pai, velho, vez ou outra falava da morte que já estava mais pra cá do que pra lá. Falava do legado, da herança e da responsabilidade que os filhos teriam quando o momento chegasse.  Nunca lhe davam ouvidos, queriam acreditar que a morte só chegava para os outros. Ora, era um velho saudável. Porque a morte o levaria?

    Ah! Quanta inocência! A morte nunca gostou do previsível, E foi numa tarde como qualquer outra, enquanto voltava do trabalho, que o pai sofreu um grande acidente de carro. Morreu e sequer teve oportunidade de se despedir, sua partida não fora marcada.

     A mãe chorou como nunca e repetiu por algum tempo, certas palavras “O único homem que amei. Por que, meu deus? ” Os filhos mais velhos disfarçavam a tristeza, queriam parecer fortes. O mais novo não. Chorava e chorava muito. Que força era demonstrada ao esconder lágrimas afinal?

     A mãe nunca aceitou o fato e não demorou para que caísse numa depressão. A união de outrora não existia, estavam todos distantes. Os irmãos mais velhos pouco falavam e pouco se importavam com a mãe doente. O caçula era o único que conversava com ela e, mesmo sabendo da doença, achava aquele contato muito agradável. Senão ele, quem mais tentaria animar a pobre idosa?

     Apesar dos esforços, nunca teve a capacidade de alegrar a mãe como o pai fazia. Jogava palavras no ar por horas, caminhava pela floresta de plástico, mas nada disso mudava o semblante dela por um tempo considerável. Sentia-se incapaz, culpado talvez, pela depressão e pela desunião da família inteira. Um fardo pesado demais para um guri daquele carregar.

     -Filho, não se esforce demais.

     Palavras que sempre escutava, mas não podia dar ouvidos.

     Por anos assistiu ao sofrimento da mãe e também o descaso dos irmãos. Cansou-se de rezar. O que também não fazia efeito.

     -Maninho, porque insiste tanto nessas rezas? Deus já nos desertou, pouco se importa conosco.

     Esforçava-se para não levar essa tese a sério, porém, o que seu irmão passou a dizer se mostrava verdadeiro. “Ó,Deus, por que logo conosco?”

     Os anos passavam e, pouco a pouco, sua mãe perdia a memória. Seus irmãos disputavam uma herança que ainda não estava disponível. Faziam isso enquanto deixavam a casa e, de repente, pararam de dar noticias. Malditos.

          Sentia-se sozinho na casa. Irmãos ausentes e uma mãe com amnésia. O que restava? Apegou-se às memórias do pai, e a mais forte delas era aquela floresta de plástico, as flores sem cheiro. Era ali onde, nos poucos momentos de lucidez, sua mãe queria estar.

     -Ah! Os cheiros dessas flores me deixam tão próxima de ti, Ju.

     Ju... Era assim que ela chamava o marido. O menino, já não mais aquele menino, ouvia aquilo com lágrimas nos olhos.

     “Pai, sempre subestimei sua presença. Como pode uma família ser tão forte num momento e, logo no seguinte, parecerem não se conhecer? Pai, sua ausência é muito sentida, por que nunca me ensinou a manter os elos familiares como fazia? Eu via seus filhos, meus irmãos, brigando pelo que deixou, parecia que nunca se amaram, Hoje já não os vejo, fugiram como cães fogem quando estão com medo. Onde está você para ensiná-los a amar mais uma vez? Onde esta você para encorajá-los de novo? Pai, porque não é eterno como essas flores que fez? Pai, por favor,ajude.”

     Escreveu essas palavras e colocou o papel no telhado. Tinha uma curta esperança que Ju fosse ler algum dia e que mandaria um sinal. Por que alimentava essa fé boba? Não sabia. Gostava de coisas bobas tais como Deus, e recados em telhados.

     Não demorou e, num certo dia, quando passeava com a mãe viu que ela estava com uma flor de verdade na mão e a cheirava. Tomou a flor, mas era tarde. A idosa já passava mal e isso poderia ser fatal. E, de fato, foi. O organismo não aguentou; a mãe morreu dois dias depois. Chorou muito no dia e em todos os dias que se seguiram.

     E foi num desses dias que estava coberto em suas próprias lagrimas que escreveu as ultimas coisas que teve vontade.

     “Pai, morreu quando ninguém esperava e nossa família morreu consigo. Mamãe, enfim, oficializou a morte do corpo. A alma dela morrera naquele acidente de anos atrás. Papai, como pôde criar três filhos tão desgraçados e um tão fraco? Os primeiros só queriam dinheiro, e eu nunca fui capaz de reviver o amor que levou consigo no caixão. Papai, nosso amor era assim tão fraco? Que amor de família era esse que tínhamos? Aquelas flores de plástico são muito mais fortes que aquele pseudo amor. Sim, essas flores estúpidas que agora cheiram à morte. Sim, um cheiro horrível de morte. Papai, por favor, me responda. É o plástico mais forte que o amor?”

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Máscara

-Você é estranho...
-Você tem um estilo que ninguém valoriza.
-É careta
-Antigo, esses valores já foram esquecidos.
-Educado, sempre quer algo mais.
...
-Ora, deixem o pobre rapaz, ele só tem uma máscara diferente.

quarta-feira, março 11, 2015

O Homem Ruim

Ora, a pervigília está de volta. Não há opções do que fazer. Todos dormem agora, apenas estranhos estão acordados. Um destes sou eu, não que esteja me ofendendo ao me chamar estranho, afinal, isso todos somos de uma certa forma. Bom, por alguma razão, as estrelas, hoje, pouco me interessam. foco-me apenas nos desenhos que faço no papel.

Há coisas dentro de mim que precisam de expressão seja ela como for. Existem sentimentos que me trazem certa angústia. Um desconforto latejante desliza entre minhas costelas e causam um frio inquietante no meu ser. Meu coração bate em um ritmo que todos os compassos são diferentes. Isso me traz angústia e me deixa, quem sabe, vivendo numa espécie de agonia.

Estou longe do meu paraíso, se é que tenho um. Sei que fui um homem ruim, e essa raça não pode desfrutar de qualquer éden que seja. Minhas lembranças me mergulham em madrugadas melancólicas e são fortes o bastante para me deixarem no fundo do poço. Preciso de ajuda, mas acho que as divindades deixaram, há muito, de ajudar os maus homens

O céu está com um belo azul, enfim, percebo. Nada combina com o sal em meus olhos, nada combina com a vermelhidão em minha esclerótica. Nenhum elemento combina com a vergonha que se iniciou em meu interior e, muito menos, com o medo que passei a sentir do meu próprio eu.

terça-feira, janeiro 13, 2015

Os Tais Deuses

- Ora, aquele reles humano está ali de novo para nos pedir favores, todas as semanas ele está lá.
- Ora, por que o chama assim, irmão?
- Ele está sempre nos pedindo algo, esse é o porquê.
- Nós somos deuses, isso é bem normal.
- Sim, mas não podem pedir nossa ajuda por qualquer coisa.
- Não?
- Não!
- Mano, não seja assim, aquele humano não é um que não tenha valor, afinal, existimos por causa dele.
- O que quer dizer?
- Não é óbvio? Só existimos pela crença dele, se, por algum acaso, ele parar de acreditar em nós, vamos simplesmente desaparecer?
- Enlouqueceu? Somos seres divinos, não dependemos de humanos para existir, muito pelo contrário.
- Mesmo?
- Tenho toda certeza.
- Então, quer dizer que temos poderes infinitos? Podemos criar tudo o que quisermos apenas com a força de nossas mentes, temos o poder de fazer que as coisas sejam exatamente como queremos?
- Sim, tenho total convicção disso.
- Ai ai – dizia enquanto balançava a cabeça – como pode ter esse pensamento tão infantil? Só somos capazes de fazer isso porque alguém acredita que podemos.
- Deixe de besteiras, meu irmão, não somos considerados deuses à toa.
- Afinal, quem nos considera deuses?
- Nossos poderes ilimitados e nossa imortalidade deixam isso claro.
- Ah, irmãozinho, como você precisa aprender coisas.
- O que quer dizer?
- Digo que você é muito inocente. Venha comigo.
            Os dois logo deram passos, não demoraram muito, até que avistassem uma mulher, aparentemente bem cansada, trabalhando incessantemente com umas pilhas papéis:
- Veja lá, faça que pare de trabalhar e volte pra casa.
- Facilmente.
            Fez alguns poucos gestos com a mão direita e, logo em seguida, a mulher guardou todos os papéis e se colocou no caminho para casa.
- Aí está
- Muito bem, mas não terminamos, siga-me.
            Os deuses caminharam por cima das nuvens, enquanto o mais velho deles procurava por algo, ou alguém, para ensinar algo a seu caçula. Não foi tão rápido quanto achar aquela mulher. Então, na terra, viram um homem que chorava muito frente à uma pilastra:
- Veja lá, irmãozinho, use seus poderes, faça que pare de chorar.
- Como quiser.
            Logo fez alguns gestos com as mãos. Fez outros e outros. Nada que fizesse aquele homem parar de chorar. Tentou por um certo tempo, mas nada que tentasse fazer surtia efeito:
- Não estou conseguindo, o que está havendo?
- É tão simples, você não tem poder sobre ele porque ele não acredita na nossa existência, nada que façamos pode fazê-lo parar de chorar.
- E qual o motivo para tantas lágrimas?
- Acho que a mãe dele morreu ontem. Mas o que importa é o que quero mostrar, só temos o que achamos ter porque alguns nos levam a sério, acreditam em nós, aos que acreditam em nossa inexistência, não podemos fazer nada, seja para ajudar ou não.
- Então, nossos poderes têm limites nas crenças de cada humano lá embaixo.
- Não só nossos poderes, irmão, nossa existência inteira depende da crença deles.
- Está dizendo que não somos fortes como a maioria dos humanos pensa?
- Sim, é isso que estou dizendo. Eles existem, nós querendo ou não, e podem influenciar em nossa existência, são eles que detêm o poder divino.
- Por que então eles nos pedem as coisas?
- Eles não sabem o poder que tem, acham que são inferiores a nós em todos os sentidos. Se eles tivessem conhecimento do potencial que possuem para mudar as coisas ...
- Ora, irmão, por que acredita tanto neles?
- Por que tantos acreditam em nós? Eles podem nos extinguir a qualquer momento.
- Não se reduza tanto, você é um deus.
- Sim, eu sou e, justamente por isso, podem duvidar de mim, que eu exista. Os humanos não passam por isso.
- Por acaso, você está insinuando que toda a fé que eles têm em nós é, simplesmente, inútil?

- Não, irmãozinho. Sinceramente, eu acredito que um pouco de fé os ajude em certas ocasiões. Porém, eu acho que as coisas seriam muito melhores se eles começassem a acreditar em si mesmos.

quinta-feira, outubro 23, 2014

Primavera?

A primavera, enfim, chegou, em pouquíssimo tempo, as flores, as cores, reviverão. Em breve, a chuva regressará a nós e toda essa paisagem renascerá. O verde da grama reluzirá, o vermelho das rosas irá nos apaixonar uma vez mais. Essa seca irá longe e nossos olhos poderão chover de felicidade. As melodias diárias trarão notas mais agradáveis, acordes maiores, harmonias mais simples e amáveis.

...

A chuva não veio, a paisagem segue morta e nos dói os olhos. Onde está o verde dos gramados? Há apenas rosas desbotadas, como se apaixonar assim? A seca segue por aqui, narizes sangrando, lábios rachados e a chuva dos olhares apenas revelam mágoas e desapontamentos. As músicas desses dias nos torturam, a melodia nos machuca, acordes menores, harmonias que apenas trazem angústias. A primavera está aqui, então, por quê? Que motivo? É inexplicável, mas há, somente, a ausência de cores, definhamento de flores, a agonia, a morte de amores.