terça-feira, junho 20, 2023

Demônios e memórias

 Certa vez, li, num livro famoso, sobre um ser que representava todo o mal que há. As pessoas tem medo dessa criatura até hoje. Demônio, assim o dizem. Nunca entendi o fato de temerem uma criatura presente num livro. Fingia entender, fingia sentir, mas isso nunca entrou na minha cabeça.

Minha cabeça, que tanto adoro, me proporciona belas memórias que são difíceis de se esquecer. Memórias não me largam e gosto de ter essas lembranças comigo. Mal sabia que a amo, com a mesma proporção que a odeio.

Por que temer criaturas imaginárias, se o maior dos demônios vive ao meu lado?

sexta-feira, novembro 18, 2022

Composição

 Como machuca essa saudade

fria maldade, fria frieza

sentimento na mesa, na cabeça

Que teça, novamente, o sentimento

solitário pensamento: aqui, solidão

Pega-me a mão e conduz

à ausência de luz 

que sozinho compus; tal maestria

que lia, não só um futuro

tão escuro, mas o passado

que, ao meu lado, parece sedutor

seu fulgor, porém, desapareceu

Sou só eu, só. A maldade,

pois, é saudade


E como machuca.

sábado, maio 16, 2020

Paixão Tímida


Acometido por sensações estranhas, observa o que se passa com tudo que pode ser. Piscadelas de angústia, batimentos de confusão. Vontade de esgueirar-se para suas janelas. Desejo... de um perfume, de uma voz, de liberdade.

As certezas são espancadas por prefixos. São tempos difíceis para os que se atrevem sonhar, mesmo que o façam tão bobamente quanto um clichê possa ser. São tempos difíceis para os que vivem uma pandemia de amor.

terça-feira, outubro 29, 2019

Monstros


Há histórias para todos os tipos de leitores. Há aquelas com palhaços e monstros. Há algumas felizes e outras que são pura destruição. Umas alegram, outras nem tanto. Todas enriquecem a alma e existem para todos os gostos.
Era bom vê-los, os sorrisos estavam presentes e todo o mundo sumira. Éramos nós apenas, e não houve nada mais agradável. A realidade fugira, estava longe, a fantasia tomara de conta. Formam-se conexões, fortalecem-se outras delas. Era bom tê-los.
Fantasias se desfazem, a realidade volta cruelmente e traz seus monstros com ela. Os monstros me assombram e me deixam sem ação. Tenho dúvidas quanto à minha força, pergunto-me sobre quem sou. Afinal, qual seria essa resposta? O que venho me tornando? Serei eu o pronome que aprendi a lidar? Realidade, fique longe, imploro-te. Chega de me assustar com suas verdades frias. Sinto frio e meus ossos todos se congelam, meu cérebro não me responde com a velocidade que me acostumei. Realidade, fique longe, por favor.
Engano-me, a realidade não é um ser que simplesmente pode ir embora, engano-me porque não sei o que faço nem o que farei. Meus monstros de estimação me pressionam, me deixam inapto para o que quer seja. Estou caminhando em círculos e minhas pegadas me incomodam. Esse desenho é um ciclo vicioso, que será que se tornará?
Onde está minha força de outrora? Aliás, tive força outrora?
Pergunto-me, o que andei fazendo, que sofrimentos venho causando, que cabeças estou bagunçando? Meus monstros internos me intimidam e me deixam incapacitado. Seria eu meus próprios monstros? Afinal, meu cérebro é o responsável por alimentar todos esses monstros? Apesar de tudo o que digo, afinal, o monstro sou eu?

sexta-feira, outubro 11, 2019

Labirinto

Chateio-me, entristeço por chatear-me, derrubo-me. Lembro-me, alegro-me, ergo-me. Chateio-me, escrevo-me, derrubo-me. Alegro-me, perco-me, procuro-me. Chateio-me, entristeço-me, odeio-me. Amo-me, entristeço por amar-me, derrubo-me.
.
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Erga-me? Alegra-me?

sábado, maio 04, 2019

Inodoro


     Uma casa grande, uma família grande. Esta era formada por pai, mãe e quatro filhos. Os três mais velhos eram praticamente da mesma idade, a diferença não devia passar de quatro anos entre o primeiro e o terceiro. O caçula já era muito mais novo algo em torno de dezoito anos entre ele e o mais velho. Os pais eram bem sucedidos e já planejavam a aposentadoria. Fora o caçula, que estava na faculdade, todos os filhos trabalhavam.

     Como dito, a casa era grande. O casal não queria que seus filhos saíssem de casa e construíram uma residência que faria nunca terem essa vontade. A energia presente  quase sempre foi muito boa,todos se davam muito bem.

     A mãe era apaixonada por botânica, mas era alérgica a quase todas, senão todas, as espécies de flores. Não podia sentir o cheiro delas que um mal-estar a consumia. Devido a isso, moravam isolados longe de flores naturais. O pai, ciente da condição, fez um jardim belíssimo com flores de plástico. Estas eram réplicas quase exatas visualmente, e não exalavam cheiro algum. Quando criança, seu filho caçula odiava aquelas flores, não entendia o propósito de flores que não tinham cheiro.

     O pai, velho, vez ou outra falava da morte que já estava mais pra cá do que pra lá. Falava do legado, da herança e da responsabilidade que os filhos teriam quando o momento chegasse.  Nunca lhe davam ouvidos, queriam acreditar que a morte só chegava para os outros. Ora, era um velho saudável. Porque a morte o levaria?

    Ah! Quanta inocência! A morte nunca gostou do previsível, E foi numa tarde como qualquer outra, enquanto voltava do trabalho, que o pai sofreu um grande acidente de carro. Morreu e sequer teve oportunidade de se despedir, sua partida não fora marcada.

     A mãe chorou como nunca e repetiu por algum tempo, certas palavras “O único homem que amei. Por que, meu deus? ” Os filhos mais velhos disfarçavam a tristeza, queriam parecer fortes. O mais novo não. Chorava e chorava muito. Que força era demonstrada ao esconder lágrimas afinal?

     A mãe nunca aceitou o fato e não demorou para que caísse numa depressão. A união de outrora não existia, estavam todos distantes. Os irmãos mais velhos pouco falavam e pouco se importavam com a mãe doente. O caçula era o único que conversava com ela e, mesmo sabendo da doença, achava aquele contato muito agradável. Senão ele, quem mais tentaria animar a pobre idosa?

     Apesar dos esforços, nunca teve a capacidade de alegrar a mãe como o pai fazia. Jogava palavras no ar por horas, caminhava pela floresta de plástico, mas nada disso mudava o semblante dela por um tempo considerável. Sentia-se incapaz, culpado talvez, pela depressão e pela desunião da família inteira. Um fardo pesado demais para um guri daquele carregar.

     -Filho, não se esforce demais.

     Palavras que sempre escutava, mas não podia dar ouvidos.

     Por anos assistiu ao sofrimento da mãe e também o descaso dos irmãos. Cansou-se de rezar. O que também não fazia efeito.

     -Maninho, porque insiste tanto nessas rezas? Deus já nos desertou, pouco se importa conosco.

     Esforçava-se para não levar essa tese a sério, porém, o que seu irmão passou a dizer se mostrava verdadeiro. “Ó,Deus, por que logo conosco?”

     Os anos passavam e, pouco a pouco, sua mãe perdia a memória. Seus irmãos disputavam uma herança que ainda não estava disponível. Faziam isso enquanto deixavam a casa e, de repente, pararam de dar noticias. Malditos.

          Sentia-se sozinho na casa. Irmãos ausentes e uma mãe com amnésia. O que restava? Apegou-se às memórias do pai, e a mais forte delas era aquela floresta de plástico, as flores sem cheiro. Era ali onde, nos poucos momentos de lucidez, sua mãe queria estar.

     -Ah! Os cheiros dessas flores me deixam tão próxima de ti, Ju.

     Ju... Era assim que ela chamava o marido. O menino, já não mais aquele menino, ouvia aquilo com lágrimas nos olhos.

     “Pai, sempre subestimei sua presença. Como pode uma família ser tão forte num momento e, logo no seguinte, parecerem não se conhecer? Pai, sua ausência é muito sentida, por que nunca me ensinou a manter os elos familiares como fazia? Eu via seus filhos, meus irmãos, brigando pelo que deixou, parecia que nunca se amaram, Hoje já não os vejo, fugiram como cães fogem quando estão com medo. Onde está você para ensiná-los a amar mais uma vez? Onde esta você para encorajá-los de novo? Pai, porque não é eterno como essas flores que fez? Pai, por favor,ajude.”

     Escreveu essas palavras e colocou o papel no telhado. Tinha uma curta esperança que Ju fosse ler algum dia e que mandaria um sinal. Por que alimentava essa fé boba? Não sabia. Gostava de coisas bobas tais como Deus, e recados em telhados.

     Não demorou e, num certo dia, quando passeava com a mãe viu que ela estava com uma flor de verdade na mão e a cheirava. Tomou a flor, mas era tarde. A idosa já passava mal e isso poderia ser fatal. E, de fato, foi. O organismo não aguentou; a mãe morreu dois dias depois. Chorou muito no dia e em todos os dias que se seguiram.

     E foi num desses dias que estava coberto em suas próprias lagrimas que escreveu as ultimas coisas que teve vontade.

     “Pai, morreu quando ninguém esperava e nossa família morreu consigo. Mamãe, enfim, oficializou a morte do corpo. A alma dela morrera naquele acidente de anos atrás. Papai, como pôde criar três filhos tão desgraçados e um tão fraco? Os primeiros só queriam dinheiro, e eu nunca fui capaz de reviver o amor que levou consigo no caixão. Papai, nosso amor era assim tão fraco? Que amor de família era esse que tínhamos? Aquelas flores de plástico são muito mais fortes que aquele pseudo amor. Sim, essas flores estúpidas que agora cheiram à morte. Sim, um cheiro horrível de morte. Papai, por favor, me responda. É o plástico mais forte que o amor?”

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Máscara

-Você é estranho...
-Você tem um estilo que ninguém valoriza.
-É careta
-Antigo, esses valores já foram esquecidos.
-Educado, sempre quer algo mais.
...
-Ora, deixem o pobre rapaz, ele só tem uma máscara diferente.

quarta-feira, março 11, 2015

O Homem Ruim

Ora, a pervigília está de volta. Não há opções do que fazer. Todos dormem agora, apenas estranhos estão acordados. Um destes sou eu, não que esteja me ofendendo ao me chamar estranho, afinal, isso todos somos de uma certa forma. Bom, por alguma razão, as estrelas, hoje, pouco me interessam. foco-me apenas nos desenhos que faço no papel.

Há coisas dentro de mim que precisam de expressão seja ela como for. Existem sentimentos que me trazem certa angústia. Um desconforto latejante desliza entre minhas costelas e causam um frio inquietante no meu ser. Meu coração bate em um ritmo que todos os compassos são diferentes. Isso me traz angústia e me deixa, quem sabe, vivendo numa espécie de agonia.

Estou longe do meu paraíso, se é que tenho um. Sei que fui um homem ruim, e essa raça não pode desfrutar de qualquer éden que seja. Minhas lembranças me mergulham em madrugadas melancólicas e são fortes o bastante para me deixarem no fundo do poço. Preciso de ajuda, mas acho que as divindades deixaram, há muito, de ajudar os maus homens

O céu está com um belo azul, enfim, percebo. Nada combina com o sal em meus olhos, nada combina com a vermelhidão em minha esclerótica. Nenhum elemento combina com a vergonha que se iniciou em meu interior e, muito menos, com o medo que passei a sentir do meu próprio eu.

terça-feira, janeiro 13, 2015

Os Tais Deuses

- Ora, aquele reles humano está ali de novo para nos pedir favores, todas as semanas ele está lá.
- Ora, por que o chama assim, irmão?
- Ele está sempre nos pedindo algo, esse é o porquê.
- Nós somos deuses, isso é bem normal.
- Sim, mas não podem pedir nossa ajuda por qualquer coisa.
- Não?
- Não!
- Mano, não seja assim, aquele humano não é um que não tenha valor, afinal, existimos por causa dele.
- O que quer dizer?
- Não é óbvio? Só existimos pela crença dele, se, por algum acaso, ele parar de acreditar em nós, vamos simplesmente desaparecer?
- Enlouqueceu? Somos seres divinos, não dependemos de humanos para existir, muito pelo contrário.
- Mesmo?
- Tenho toda certeza.
- Então, quer dizer que temos poderes infinitos? Podemos criar tudo o que quisermos apenas com a força de nossas mentes, temos o poder de fazer que as coisas sejam exatamente como queremos?
- Sim, tenho total convicção disso.
- Ai ai – dizia enquanto balançava a cabeça – como pode ter esse pensamento tão infantil? Só somos capazes de fazer isso porque alguém acredita que podemos.
- Deixe de besteiras, meu irmão, não somos considerados deuses à toa.
- Afinal, quem nos considera deuses?
- Nossos poderes ilimitados e nossa imortalidade deixam isso claro.
- Ah, irmãozinho, como você precisa aprender coisas.
- O que quer dizer?
- Digo que você é muito inocente. Venha comigo.
            Os dois logo deram passos, não demoraram muito, até que avistassem uma mulher, aparentemente bem cansada, trabalhando incessantemente com umas pilhas papéis:
- Veja lá, faça que pare de trabalhar e volte pra casa.
- Facilmente.
            Fez alguns poucos gestos com a mão direita e, logo em seguida, a mulher guardou todos os papéis e se colocou no caminho para casa.
- Aí está
- Muito bem, mas não terminamos, siga-me.
            Os deuses caminharam por cima das nuvens, enquanto o mais velho deles procurava por algo, ou alguém, para ensinar algo a seu caçula. Não foi tão rápido quanto achar aquela mulher. Então, na terra, viram um homem que chorava muito frente à uma pilastra:
- Veja lá, irmãozinho, use seus poderes, faça que pare de chorar.
- Como quiser.
            Logo fez alguns gestos com as mãos. Fez outros e outros. Nada que fizesse aquele homem parar de chorar. Tentou por um certo tempo, mas nada que tentasse fazer surtia efeito:
- Não estou conseguindo, o que está havendo?
- É tão simples, você não tem poder sobre ele porque ele não acredita na nossa existência, nada que façamos pode fazê-lo parar de chorar.
- E qual o motivo para tantas lágrimas?
- Acho que a mãe dele morreu ontem. Mas o que importa é o que quero mostrar, só temos o que achamos ter porque alguns nos levam a sério, acreditam em nós, aos que acreditam em nossa inexistência, não podemos fazer nada, seja para ajudar ou não.
- Então, nossos poderes têm limites nas crenças de cada humano lá embaixo.
- Não só nossos poderes, irmão, nossa existência inteira depende da crença deles.
- Está dizendo que não somos fortes como a maioria dos humanos pensa?
- Sim, é isso que estou dizendo. Eles existem, nós querendo ou não, e podem influenciar em nossa existência, são eles que detêm o poder divino.
- Por que então eles nos pedem as coisas?
- Eles não sabem o poder que tem, acham que são inferiores a nós em todos os sentidos. Se eles tivessem conhecimento do potencial que possuem para mudar as coisas ...
- Ora, irmão, por que acredita tanto neles?
- Por que tantos acreditam em nós? Eles podem nos extinguir a qualquer momento.
- Não se reduza tanto, você é um deus.
- Sim, eu sou e, justamente por isso, podem duvidar de mim, que eu exista. Os humanos não passam por isso.
- Por acaso, você está insinuando que toda a fé que eles têm em nós é, simplesmente, inútil?

- Não, irmãozinho. Sinceramente, eu acredito que um pouco de fé os ajude em certas ocasiões. Porém, eu acho que as coisas seriam muito melhores se eles começassem a acreditar em si mesmos.

quinta-feira, outubro 23, 2014

Primavera?

A primavera, enfim, chegou, em pouquíssimo tempo, as flores, as cores, reviverão. Em breve, a chuva regressará a nós e toda essa paisagem renascerá. O verde da grama reluzirá, o vermelho das rosas irá nos apaixonar uma vez mais. Essa seca irá longe e nossos olhos poderão chover de felicidade. As melodias diárias trarão notas mais agradáveis, acordes maiores, harmonias mais simples e amáveis.

...

A chuva não veio, a paisagem segue morta e nos dói os olhos. Onde está o verde dos gramados? Há apenas rosas desbotadas, como se apaixonar assim? A seca segue por aqui, narizes sangrando, lábios rachados e a chuva dos olhares apenas revelam mágoas e desapontamentos. As músicas desses dias nos torturam, a melodia nos machuca, acordes menores, harmonias que apenas trazem angústias. A primavera está aqui, então, por quê? Que motivo? É inexplicável, mas há, somente, a ausência de cores, definhamento de flores, a agonia, a morte de amores.

segunda-feira, setembro 22, 2014

As tais cores

Os campos ali eram preenchidos por plantas de diversas cores. Formavam uma bela paisagem e um belo lugar para se fazer caminhadas. A sombra dali deixava o ambiente muito agradável e caminhar naquela região era extremamente prazeroso. Havia por lá uma dupla inseparável, pai e filho, que costumavam caminhar por entre as árvores que ali estavam enquanto curtiam a companhia um do outro. Pelos olhos do filho, o pai era extremamente sábio e, pelo olhar do pai, o filho era bastante curioso.
Num certo dia, perderam a hora e andaram muito mais do que era de costume. Viram-se num lugar onde duas trilhas se cruzavam e estavam em pé bem na interseção entre elas. Naquele ponto, existia uma divisão clara de cores e a falta delas. À esquerda dos dois, havia árvores com folhas amarelas e outras com folhas cinzas. Essas árvores e suas cores não se misturavam. À direita, as árvores tinham folhas roxas e, depois de uma certa linha imaginária, apenas uma árvores no meio de uma planície de grama morta. Nas poucas folhas que restavam, podia-se ver que essa já foi uma árvore cujas folhas eram rubras.
O pai lembrava daquele lugar, esteve lá há muito tempo, não lembrava com quem, mas sabia que já estivera ali. Observava seu filho e percebia o encanto por aquele cenário. O garoto gostou de todas as cores, mas a solidão do vermelho fez que se apaixonasse. O menino correu em direção à árvore solitária enquanto o pai o observava e o seguia caminhando lentamente.
Depois de um tempo de corrida, o menino chegou à árvore. De perto, percebeu o quão grande era e, justamente pelo tamanho, teve vontade de subir até seu topo. Estava reunindo a coragem necessária quando sentiu a mão de seu pai tocar seu ombro esquerdo. Olhou diretamente para seu pai e percebeu o olhar de reprovação. Estava bem claro que a ideia de subir ao topo da árvore não era uma a ser considerada boa.
- Mas pai.......... por quê?
- Filho, o tronco desta árvore está podre, não deve demorar muito para que ela morra. Não se arrisque, não vale o risco.
- Mas pai, quero pegar uma folha daquelas, sua cor é fascinante.
- Concordo, porém, essas folhas logo morrerão também, como já disse, não vale o risco.
- Ao menos se existissem mais como estas...
- Já existiu, meu filho. Já existiu.
- Como sabe?
Aquele homem lembrou-se da vez que estivera ali e contou ao seu filho o que lembrava. Recordou-se exatamente das árvores amarelas, cinzas e roxas. Naquele tempo, havia mais algumas árvores vermelhas e um bom número delas já estava começando a apodrecer. Na primeira vez por lá, também se apaixonou pelo vermelho e, mesmo que algumas já estivessem apodrecendo, percebia que o rubro se misturava com as outras cores, coisa que já não acontecia. Existia alguém, uma espécie de jardineiro, que não deixava as árvores perecerem ao tempo. Esse alguém, naquela época, já era bem velho e achava que o vermelho era muito trabalhoso, por isso, não dava a elas a atenção necessária.
- Pai isso realmente é triste. Esse é o vermelho mais bonito que já vi. Não há nada que possamos fazer?
- Filho – respondeu – perguntei a mesma coisa para o velho homem. Ele me disse que existe algo muito peculiar nessa árvore, nessas folhas. O motivo de ser tão difícil cultivá-la
- E o que seria?
- Bom, pelo que sei, elas nunca foram numerosas como as outras e, como já disse, ela era a única que conseguia se misturar com espécies distintas. Aparentemente, ela influenciava o número de árvores de cada cor, contudo, o fazia de maneira imprevisível. Em certas estações, misturava-se com o amarelo e o multiplicava de maneira incontrolável. Em outros tempos, misturava-se e o amarelo praticamente sumia. Quando o amarelo diminuía consideravelmente seu número, o cinza dominava aquele lado da paisagem. Baseando-se nisso, somos conduzidos a pensar que esse fenômeno era controlado pelas estações do ano, mas não, pois o comportamento dessas três cores nunca se repetiu por duas primaveras ou qualquer estação que queira.
- Muito curioso. Como aquele idoso sabia disso?
- Isso foi observado por seis ou sete gerações da família dele, ou um número perto disso, não me recordo.
- Entendo... E como era a relação entre o vermelho e o roxo?
- Essa era, como as outras, bem interessante. Houve um tempo em que o roxo e o vermelho foram praticamente iguais, numericamente falando. Quando ocorria a mistura, inicialmente, o vermelho se comportava como um parasita para o roxo e o matava em grande número. Depois, como uma forma de vingança, era o roxo que se portava como parasita do vermelho e também o matava em larga escala. Isso ocorria até que estivessem em equilíbrio e coexistissem em paz e harmonia novamente, pelo menos, até que, após um tempo imprevisível, o processo recomeçasse.
- Devia ser divertido ver a paisagem mudando completamente sem saber o que esperar dela.
- Devia ser espetacular. Agora, vamos voltar para casa, sua mãe nos espera.
Deram as costas para o último exemplar de vermelho que existia ali e caminharam rumo à trilha que os levaria de volta para casa. O menino estava, ainda, consumido por uma curiosidade sem fim. Queria muito saber como eram as misturas que já ocorreram. Enquanto caminhavam, o pai percebia a inquietação do filho e percebia que muitas perguntas ainda existiam.
- Pai?
Começou a falar, mas logo se calou. Não queria perturbar o pai fazendo uma pergunta cuja resposta o pai não seria capaz de dar. Não queria fazer que seu pai se sentisse mal por não ter a habilidade para responder. Pura besteira, coisas de uma criança que pouco entende de consciências.
-Filho, apressemos o passo. Se nos atrasarmos para o jantar, sua mãe não ficará muito feliz conosco.
-Pai, não consigo ir mais rápido.
-Está certo – disse enquanto se agachava – suba nas minhas costas.
O filho não perdeu tempo e logo fez o que o pai sugeriu. Seu pai apressou o passo, sabia como a mulher era quando o jantar não era servido na hora certa. Fez todo o esforço que achou possível, mas não foi suficiente, atrasou-se. Quando chegaram, o jantar já estava na mesa.
-Mia – confesso não saber se esse era o nome dela ou uma forma carinhosa de chamá-la -, perdão pelo atraso, acabei levando nosso filho muito mais longe do que devia.
-Onde foram?
-Apenas seguimos as trilhas dos campos.
-Mãe – o filho tomou a palavra –, não discuta com meu pai, a culpa foi toda minha.
Mia olhou diretamente para o filho, estranhando-o de certa forma, ele nunca fora uma criança que invadias suas discussões com o marido. Não possuía o hábito de dar broncas no filho e não seria essa a vez que passaria a fazer isso.
-Tudo bem, jantemos logo então, mas fique avisado, não serei eu a fazer o jantar amanhã.
Sentaram-se todos e comeram. Conversaram bastante sobre o dia, Mia passou a querer saber de tudo que acontecera. No momento que seu filho descrevia as árvores que havia observado, o vermelho em especial, ficou impressionada, não imaginava que o garoto fosse se interessar tanto por folhas, por árvores, que seja. As descrições do menino a faziam lembrar de várias coisas do seu passado e do passado do seu marido.
Naquela noite, antes que fosse dormir, precisaria conversar com seu marido. Terminaram o jantar e os três passaram mais algumas horas conversando. Quando se deram por satisfeitos, marido e mulher levaram o pequeno até o quarto, deixaram-no e esperaram que adormecesse. Logo em seguida era a vez dos dois e, assim que chegaram no quarto:
-Dan – novamente não sei se esse era realmente seu nome – esse é aquele mesmo vermelho?
-Sim, querida, o mesmo vermelho.
-E o que faremos?
-Nada, penso em deixá-lo alimentar essa curiosidade.
-Está louco? Quer que ele perca o mesmo tempo que você perdeu?
Dan, quando mais jovem, conheceu o vermelho e, por causa desse, teve vontade de se tornar, e acabou por fazê-lo, um jardineiro. Conheceu Mia quando estava obcecado em conseguir cultivar o tal vermelho, nunca foi capaz de mantê-lo por muito tempo e assim passaram-se vários anos. Era esse o tempo perdido citado por Mia.
-E o que sugere que eu faça? Entre na cabeça do nosso filho e arranque a memória do vermelho de lá?
-Se isso fosse possível...
-Não é isso que devemos fazer, penso em facilitar as coisas para que consiga sanar essa curiosidade.
-E como pensa em fazer isso?
-Simples, vou viajar daqui a dois dias.
-DOIS DIAS??!?
-Sim, dois dias. Não vou amanhã porque preciso fazer o jantar – falou enquanto dava uma risada.
-Não pode viajar assim tão de repente.
-Claro que posso. Você tem total capacidade de cuidar das coisas sozinha por alguns dias.
-Alguns quantos?
-Dez dias, nada mais.
-Mia, é pelo nosso filho. Nós dois sabemos que ele se parece muito comigo e, por isso, ele vai querer saber como tratar do vermelho.
Mia não queria acreditar naquilo, mas, no fundo, ela sabia que o que saía da boca do seu marido era pura verdade. Esse foi o motivo pelo qual não foi difícil convencê-la que aquilo fosse necessário.
-E onde você pensa que vai?
-Vou visitar o neto de um certo velho que conheci há muito tempo. Vou com minha bicicleta. Devo demorar quatro dias para chegar, dois para convencê-lo a vir falar com nosso filho e mais quatro para voltar.
À Mia não restou muita opção que não fosse a aceitação da ideia, afinal, era pelo bem do filho. Sabia que o conhecimento do marido não seria suficiente para ajudar o garoto.
Dormiram. No dia seguinte, tudo correu normalmente. O menino brincava, seus pais trabalhavam, tudo como o cotidiano estabeleceu. Na hora do jantar, Dan contou ao filho que viajaria no dia seguinte e que ficaria uns dez dias fora:
-Legal, pai. Aonde vai?
-Vou buscar um amigo
-Entendo. Tem algo a ver com a árvore de ontem? Nossa, como aquele vermelho era fantástico.
-Sim, filho. Percebi que queria me fazer algumas perguntas e se conteve. Esse meu amigo vai poder te ajudar muito mais do que eu.
Na manhã seguinte, bem cedo, Dan já estava pronto para partir com a bicicleta.
-Mia – disse pouco antes de beijar a esposa – cuide das coisas por aqui. Não se esqueça das plantas.
Dito isso, partiu. Mia estaria sozinha por dez dias com seu filho. E foram dez dias que teve de aguentar a descrição das árvores coloridas uma infinidade de vezes. Mia não gostava de deixar a casa sem ninguém por lá, porém, um dia, salvo engano, no nono após a partida de Dan, seu filho foi capaz de convencê-la a ir até o local onde o vermelho estava.
Chegando lá, Mia percebeu a divisão clara de cores, o cinza, o amarelo e o roxo. Não viu o vermelhos, todas as folhas haviam deixado o caule para trás. A tristeza no rosto do filho era evidente, não conseguiu mostrar a cor à mãe e isso o deprimiu. Foi uma noite de muitas lágrimas aquela.
Então, o décimo dia chegou. Dan devia estar de volta em algum momento daquele dia. Mia o aguardava ansiosamente, pensava que chegaria para o jantar junto do seu “amigo” e, devido a isso, fez comida para quatro pessoas. Infelizmente, Dan não chegou naquele dia. Mia ficou muito preocupada, seu marido nunca foi de descumprir os prazos que estipulava. O filho também se preocuparia, mas estava muito ocupado pensando no lugar aos as folhas rubras tinham ido.
Finalmente, quinze dias após a partida, Mia avistou duas bicicletas no horizonte, isso logo no início da tarde. Tinha certeza que era Dan e o neto do tal velho e realmente eram os dois. Não se passaram mais que dez minutos do momento que viu as duas bicicletas até que chegassem.
-Filho – gritou Dan logo que chegou.
-Pai – o filho correu para os braços do pai com lágrimas nos olhos.
-Ei, garoto, o que houve?
-As folhas pai, todas elas sumiram.
-Ei, não se preocupe. Vê aquele homem? - perguntou enquanto apontava um dedo para o homem que chegara junto com ele – Ele vai te ajudar a ter todo o vermelho que quiser.
Deixou o filho sozinho com o homem enquanto ia conversar com sua esposa:
-Por que demorou tanto? Não seriam dez dias?
-Mia, me perdoe. Não fui capaz de convencê-lo a vir em apenas dois dias, precisei de sete.
-Tudo bem, pelo menos ele está aqui.
Os dois ficaram observando o filho e sua conversa com aquele homem. Foram necessários dez minutos de conversa para que o filho parasse de chorar. A conversa durou muito tempo, passaram pela história do vermelho e suas misturas com outras cores, em especial, o amarelo o cinza e o roxo.
-Senhor – dizia o garoto –, isso é estranho. Quer dizer que, para o vermelho nascer, necessito dessas três em especial?
-Sim, meu garoto, não há rubro sem cinza, sem amarelo e sem roxo.
-Mas por que o foi o único a morrer nesse lugar?
-Filho, o vermelho é uma folha extremamente complicada. Mesmo que cuidemos muito bem dela, ela pode pode morrer e, algumas vezes, ela pode nem nascer. É muito mais complexa que as outras. Ainda existe o fato de suas sementes serem muito mais raras que qualquer outra que imagine.
-Por que isso?
-Isso é uma coisa que ninguém nesse mundo vai poder te responder de forma convincente.
O homem falou por horas naquele dia e por horas no dia seguinte. Ficou naquela casa por três dias e, sempre que questionado pelo garoto, tirava a dúvida se essa estivesse ao seu alcance. Quando se preparou para partir, entregou ao menino quatro sacos de sementes.
-Aqui garoto. Cinzas amarelos, roxos e vermelhos, faça bom uso delas.
-Muito obrigado, tio.
-Lembre-se muito bem do que eu te disse nesses dias. Escolha muito bem o terreno onde plantar o vermelho. Você já sabe de algumas condições... E nunca se esqueça, o vermelho é uma folha para a eternidade...
E o garoto completou:
-Mas é uma pena que a maioria dos terrenos tenham medo do eterno.

segunda-feira, setembro 01, 2014

O Lugar Nenhum

Um teatro
Uma floresta
Um incêndio
Um campo de batalha.

Há pessoas mascaradas fazendo coisas completamente sem sentido. Observa enquanto tenta compreender o que se passa. As máscaras são horripilantes, parecem ter origem na mais terrível história do seu imaginário. Aquilo o assustava, assustava de uma forma que seus próprios fantasmas não conseguiam. A plateia era formada por manequins, todos eles sem rosto. Não reagiam a nada, não se mexiam, não falavam. A impessoalidade da coisa era muito curiosa. Qual era o motivo daquele espetáculo para aqueles bonecos todos? Vira-se uma vez mais para os mascarados, todos o ameaçavam e toda aquela construção se desmonta. 

As árvores possuem formatos incomuns e sem um padrão que seja notável àqueles olhos. É possível notar a respiração das folhas e dos troncos. Os galhos se mexem como tentáculos e fazem tudo o que podem para bloquear a luz. Aparentemente, sua visão, em breve, não lhe serviria mais de nada. Ouve vozes dizendo coisas completamente desconexas. De repente, animais surgem correndo com tudo o que podem, fazem muito barulho, percebe que estão todos assustados. Atenta-se ao seu redor e vê um clarão se aproximar.

A temperatura começa a aumentar  descontroladamente, o fogo passa a consumir tudo. Os animais ficarão sem lugar para ir. Fixou o olhar naquela labareda, pensava em fugir, mas, por alguma razão, deveria ficar ali e enfrentá-la mesmo sabendo que não havia uma vitória o esperando. Senta-se e apenas espera. O fogaréu o cerca, não o afeta, mas acaba com tudo ao seu redor. Surge um relógio no pulso direito, ele começa a olhar a movimentação dos ponteiros. São muitos os movimentos e, assim como chegaram, as chamas somem sem uma explicação. O relógio some e o frio começa.

Um asfalto esburacado surge do chão logo à sua frente. Quer guiá-lo para algum lugar. Levanta-se e logo dá seus primeiros passos sem saber aonde está indo. Sempre fora uma pessoa curiosa. Direita, esquerda, direita, esquerda. Essa repetição ocorre centenas de vezes até que, logo à sua esquerda, uma explosão, que foi completamente ignorada, ocorre. Mais algumas dezenas de vezes até que levante sua cabeça. Vira-se para a esquerda e vê capacetes brancos, para a direita e vê capacetes negros. Decide fechar os olhos e ouve disparos incontáveis. Os sons e as origens deles não o ameaçavam, porém, o perturbavam bastante. O asfalto some e tudo o que resta é uma trilha de barro.

Todo aquele cenário era horrendo, por várias vezes desejou, secretamente, a morte e, por várias outras, desejava que sequer tivesse nascido. O barro por onde passou a andar deixava tudo bem claro. Saíra de lugar algum e estava indo, sem hesitar,  para lugar nenhum.

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Quase Sonho

No jardim, as folhas mudavam de lugar, o vento batia na árvore que ali estava, as folhas caíam e se arrastavam lentamente. O sol já não estava alto, ia se por em uma ou duas horas, a temperatura era agradável, era um belo dia, não era possível negar.
Sentou-se na varanda, levantou-se, caminhou, olhou para as nuvens. O tempo estava fechando. Aquele era o dia do adeus, não sabia como reagir, não sabia o que fazer ou o que dizer. Faria, diria, mas sem consciência do que. O céu deixa de ser totalmente azul, o cinza toma parte dele. Afinal, aquele era o dia e o céu não poderia estar em sua mais bela forma. Sentou-se novamente e esperou.
Ao longe, via a pessoa que tanto queria, ela se dirigia à sua casa eram poucos os minutos que esperaria para que as palavras de adeus fossem ditas. Não queria, mas era inevitável. Fechou os olhos e esperou.
          Finalmente, ela havia chegado à sua cerca. Ela parou, encarou o homem que sabia que a esperava, olhou para a árvore que balançava com o vento, para as folhas no chão. Ficou ali por alguns segundos, ou minutos, como alguém que está tendo ótimas lembranças. Deu os próximos passos e chegou à varanda onde estava o homem. Uma cadeira ao lado dele a esperava.
- Boa tarde – disse a mulher que acabara de chegar.
- Boa tarde- respondeu.
- Então, hoje é o dia, vim me despedir de ti.
- Sei disso, é realmente uma pena.
- Sei que sabes o porquê de estar partindo, então, não me explicarei.
- Sim, perseguirás teus sonhos, compreendo perfeitamente.
           Ali passaram uma hora conversando, ela falou de suas ambições, explicou seus sonhos, o motivo de estar partindo, contrariando completamente o que acabara de falar. Achava que ele não sabia de tudo, pensava que sabia de verdades quebradas. O homem a ouvia atentamente, prestava atenção em todas as manias com as quais conviveu por muito tempo. Como os braços se mexiam enquanto falava, as piscadas mais longas dos olhos, a mão no cabelo e coisas assim. Atenção a todos os detalhes.
- Espero não te magoar por estar partindo.
- Não te preocupes, ficarei bem, não afirmo que ficarei como a melhor pessoa deste mundo, mas, como já disse, te compreendo perfeitamente.
- Peço perdão pelas feridas, mesmo que sejam pequenas. Meu sonho parece ser tão real, não há como ficar aqui e não o perseguir.
- Apenas siga o que tiveres vontade de seguir. Agora, dê-me um abraço e vá.
           Abraçaram-se e, naquele momento a chuva já começava a cair, muito embora o sol ainda estivesse ali, quase escondido, é verdade, mas sua luz ainda era visível. Um abraço era realmente tudo o que queria naquele momento. Os olhos daquele homem se fecharam e não se sabe a força do desejo dele para que aquilo fosse eterno.
             Os corpos se separaram do abraço, a mulher abriu seu guarda-chuva e preparou-se parar ir
- Espero que fique feliz.
             O homem, debruçado no balcão, observou os passos da mulher no jardim, a árvore e as folhas molhadas e a distância entre os dois que só aumentava. Compreendera que ela estava atrás de tudo o que sonhava, mas lamentava por ver o vento e a chuva levarem o seu maior sonho. “Espero que fique feliz”. As últimas palavras do sonho que sumiria em breve, e como queria ficar feliz. Era uma pena, mas teria de achar a felicidade vivendo num poço de tristezas.

terça-feira, dezembro 31, 2013

Jasmim

- Essas flores, todas elas são tão sem personalidade, sem cores, perfume e graça. Poderia substituir todas elas por grama que não faria diferença. As pétalas não chamam atenção, não há motivos para que eu continue aqui.
            Foram as últimas palavras daquele adolescente antes de mergulhar no mundo em busca de novas flores, cores, perfumes e graça. Simples demais, há campos de flores em qualquer lugar desse mundo. Não seria nada difícil encontrar o que aquele jovem estava procurando. E, de fato, não era difícil encontrar flores por aí, a dificuldade estava em agradar permanentemente aquele andarilho, enjoava das flores com uma facilidade quase tão grande quanto achar as novas flores.
            Não havia perfume em pétalas que o prendesse. As flores o agradavam numa primeira visão, mas não levava tempo para que deixasse de lado e se aventurasse novamente. Caminhava sob a luz do Sol em busca de campos que nunca havia ouvido falar, de flores que, ao que parecia, apenas sua imaginação conhecia. E, por seguir sua imaginação,             perambulou por esse mundo como pouquíssimos já fizeram. Sempre fazendo amizades por onde passava, afinal, não há quem suporte viver sozinho por tanto tempo.
            E, com direções recebidas de uma dessas amizades, seguiu por um longo caminho em direção a um campo onde, supostamente, as flores eram como os sonhos que a grande maioria das pessoas tinha. As flores desse lugar podiam ouvir os que por ali passavam, era o que diziam. Besteira, claro, mas arriscaria de qualquer forma.
            Quando finalmente chegou, percebeu toda a beleza daquelas flores, sentiu o perfume que era exalado por todas aquelas que ali estavam. Encantou-se, como sempre fez quando chegava a um lugar novo, nada que garantisse que ali estavam as pétalas que procurava. Permaneceu por alguns dias, acampou e esperou até que enjoasse daquele lugar.
            Após alguns dias, começou a arrumar suas coisas, estava partindo, seguindo novamente a sua imaginação. E, no momento que colocou o pé na trilha que o levara ali, decidiu dar meia volta. “As flores nos ouvem, por que não falar com elas?” Sentou-se do lado das flores que mais lhe chamavam atenção e recitou alguns versos que tinha na cabeça. Esperou por um tempo e, para sua surpresa, as flores moldaram-se de acordo com o sentimento das palavras que ouviam. Era curioso.
            Esses acontecimentos fizeram que ficasse ali por muito mais tempo, sempre moldando as flores com palavras para ver se tomavam a cara que queria. Nunca se satisfazia e sempre mudava a cara daqueles campos. Até que, certo dia, ou melhor, certa noite, estava com a cabeça repleta de pensamentos, não bons, mas não ruins, pensamentos indefinidos. Dormiu com o cérebro povoado e falou uma infinidade de palavras enquanto dormia, palavras essas que estavam presas em seu subconsciente. Estas moldaram as flores para algo extremamente novo.

            Acordou e maravilhou-se pela beleza que seu inconsciente gerou. Alcançara o campo que tanto imaginou sem entender como. As flores ali pareciam uma espécie de Jasmim, eram belas, tinham um perfume hipnotizante e cores deslumbrantes. Não existiam motivos para que saísse dali. Com os Jasmins casou e com elas sua vida beirava a perfeição. Não se sabe, mas pode ser que tenha sido feliz para sempre.

segunda-feira, junho 17, 2013

Palavra

Ora, quem disse que um dia sentiria tanta falta assim? Amiga, onde está? Apareça, mas faça isso logo, sinto falta de você como sinto de pouquíssimas coisas. Amiga, onde está? Disse que iria ali e que logo voltaria, deixou-me nos vales dessa vida caminhando sozinho, sem inspiração ou algo parecido. Amiga, não consigo te ver por perto, estará bem? Está com frio? Como tem dormido? Que falta sinto do que falávamos no meio da noite, que saudade dos tempos que estava na minha mão sempre que eu precisasse. Amiga, onde está? Está se agasalhando bem? Com quem pode estar agora? Olho para o céu e tudo o que vejo é você, onde estão seus pés? Com quem poderia estar por todo esse tempo? Sei que não me abandonaria sem explicação, por isso, espero o tempo que for necessário para ter você na mão mais uma vez. Amiga, sei que me amou, então, qual seria a razão de tudo isso? Também te amo e admito que sem você sou apenas mais um no meio de milhares que estão por aí. Palavra, por favor, volte logo para sermos felizes como nunca e possamos produzir como sempre.  

segunda-feira, agosto 20, 2012

Arqueologia

Nascer, crescer, envelhecer e morrer. Estava quase completando esse ciclo quando memórias de tempos áureos não paravam de caminhar de um lado para o outro em sua mente e em seus sonhos. Lembrava dos tempos de arqueologia quando costumava encontrar muitas coisas curiosas e outras nem tanto. Entre essas tais coisas, havia uma que nunca saiu de sua cabeça. Estava caminhando no meio de uma terra seca com um clima de deserto, mesmo havendo vegetação na área. Sabia que iria encontrar alguma coisa ali, mas não imaginou que fosse algo que seria tão marcante. Ia caminhando no meio daquela aridez e da vegetação rasteira. Avistou o asfalto e percebeu que estava chegando perto. Mas, chegando perto do que? Pegou o binóculo de dentro da mochila e percebeu algo no horizonte, uma espécie de construção. Foi chegando mais perto e percebeu um prédio caindo aos pedaços, olhou para cima, contou o número de andares e aí estava um problema dentre muitos de suas memórias errantes. Não conseguia lembrar o número exato de andares que tinha aquele prédio nem o material de que era feito. O arqueólogo apenas adentrou os domínios daquela construção.

Aquele pobre idoso era taxado de louco por seus filhos, por dizer coisas absurdas sobre os tempos de arqueólogo que não faziam sentido algum. Coisas como ter visto espíritos nas construções que visitava, ou por insistir que conseguia ver o futuro das pessoas que olhava. Um dom? Ou apenas um quadro estranho de esquizofrenia? Alguns achavam isso, outros achavam aquilo. O certo é que nada havia de certo sobre aquele velho, não importava o que afirmavam os médicos, ou os antigos colegas de profissão, sempre houve e sempre haverá essa dúvida sobre aquele indivíduo.

Aquela construção era realmente apaixonante. Era, razoavelmente, alta e com um grande terreno plano ao seu redor. O arqueólogo invadiu o terreno daquela imponente beleza e avistou no centro algo que parecia ser um banco.  Estava cansado da jornada que fez para chegar até ali, logo, caminhou rumo ao assento e acomodou-se. Tirou uma garrafa de água da mochila, molhou a garganta e começou a olhar ao seu redor. Percebendo o grande espaço que tinha por ali, começou a imaginar o que acontecia lá quando pessoas ainda moravam por ali. Fechou os olhos e os manteve assim por um considerável período de tempo. Sentiu a brisa que passava por ali e o sol batendo em sua pele, até decidir abrir os olhos e ter a visão de como aquele lugar era nos tempos de habitação.

O pobre velho tinha sido jogado em um asilo pelos filhos. Suas histórias e contos não os interessavam mais. Achavam que era tudo uma grande besteira e que sua loucura poderia contagiar os netos. Enfim, nunca pararam para prestar atenção no que aquele pobre tinha para dizer, apenas se livraram dele da maneira mais fácil e conveniente que acharam. Tiraram dele as coisas que ele mais dava valor: a falta de rotina que sempre fez parte de sua vida e a boa conversa que sempre teve com seus antigos colegas sobre as descobertas e aventuras que tiveram juntos.

O arqueólogo conseguia ver claramente todos os espíritos de todas as pessoas que habitaram aquele local em uma determinada época. Ficou fascinado com a simplicidade e a felicidade de quase todos por ali. Procurava algo ali que pudesse ter um significado maior do que tudo que já tinha conseguido. Procurou e nada achou. Depois de um curto período de tempo, percebeu que um dos espíritos o encarava de uma maneira completamente fora do normal, afinal, eles não estavam realmente naquele lugar, eram nada mais nada menos que visões. Aquele espírito tinha a aparência de uma garotinha, e o olhava como se suspeitasse de alguma coisa, era inacreditável o que estava acontecendo.

No asilo, as visitas eram raras e tinha de se contentar com a solidão. Não gostava nenhum pouco daquele lugar, mas aquele lugar gostava muito dele. Muitos dos ali presentes gostavam de escutar suas histórias e aventuras. Porém, ele não ligava para aquilo, tudo que queria era rever os netos e deixar de ser taxado de louco pelos próprios filhos, aqueles mesmos que ele alimentou e educou durante longos anos. Achava inaceitável que fosse odiado pelos filhos que tanto amou e amado por pessoas que ele nunca tinha visto antes. Esquecido, era assim que se sentia.

Estava fascinado pela garotinha que o encarava, olhava fixamente para os olhos dela como se tentasse ver o que aconteceu com ela naquele lugar em um diferente tempo. Era uma tentativa inútil, não conseguia ver nada, apenas a olhava e nada além disso. Quem seria capaz de fazer alguma outra coisa? Uma pena que sua idade não permitia que lembrasse de muitos detalhes sobre aquela pequena garota. Momentos depois, a menina apontou o dedo para o seu rosto e começou a chamar os outros espíritos que os cercavam. Estes começaram a observar a ação da menina por um certo tempo até que todos voltaram a fazer o que faziam e deixando de lado a pequena criança . Alguém que parecia ser a mãe da menina chegou e começou a puxá-la pelo braço como quem diz que já estava na hora de ir pra casa.

Meses se passaram naquele maldito asilo e fez um punhado de amigos por lá, mas, mesmo assim, continuava a detestar o lugar e, por sua vez, o lugar continuava a amá-lo. Aquele ambiente apenas representava a exclusão pro pobre idoso, o esquecimento e a desgraça da rotina que nunca o assombrou, mas o fez nesses últimos meses. Era tedioso, era chato, era tudo que não gostava. As visitas de seus filhos e netos continuavam cada vez mais raras e isso era o que mais lamentava. Não conseguia entender o motivo de tamanha indiferença por parte deles. Sempre foi muito atencioso e presente e fazem tudo isso por acharem que era um louco? Era uma grande injustiça e achava que um dia poderia entender aquilo.

Assistiu a menininha partir com sua suposta mãe com lágrimas nos olhos. Não era pra menos, nunca havia visto nada que chegasse perto da magnitude daquilo em nenhuma de suas viagens. A garotinha olhou para trás e tirou o gorro vermelho que usava e o jogou no chão enquanto mantinha contato visual com o arqueólogo. O aventureiro decidiu fechar os olhos de novo por um razoável período de tempo e depois que os abriu não via mais aqueles espíritos. Caminhou até o lugar onde, supostamente aquele misterioso espírito havia deixado o gorro cair e começou a cavar. Depois de um longo tempo, não encontrou aquele gorro vermelho e sim um pedaço de tecido vermelho. Decidiu sair dali logo em seguida para poder voltar para casa e guardar o mais novo e, por que não dizer, mais precioso de todos os bens que já havia adquirido em uma expedição. Realizou a viagem de volta para casa e colocou aquele velho pedaço de tecido em uma maleta.

Mais alguns meses se passaram no asilo e, com essas lembranças povoando seu cérebro, não parava de pensar naquela menininha que o encarou há muito tempo e no velho pedaço de tecido que guardava. Foi até sua maleta e deu uma olhada naquele tecido, o que provava que de louco ele pouco tinha. E sobre aquela garotinha, continuava pensando o que havia acontecido com ela, o que ela se tornou, o que gostava de fazer, e sobre a vida como era a vida em família daquela fascinante criança. O que seria ela? Será que tinha algum dom parecido com o do velho arqueólogo? Mas como ela podia ver que alguém estaria ali e poderia vê-la depois de tanto tempo? O pobre idoso estava sofrendo com aquilo, não só com aquilo, mas também com uma grave doença. Sabia que a morte estava próxima e que não demoraria muito para partir.

Não pensava em nada, apenas na garotinha, quando, de repente, todos os seus filhos e netos apareceram. Todos sabiam que o idoso estava morrendo e que não demoraria muito para que acontecesse. Conversaram por um longo tempo. Os filhos todos sabiam que não poderiam mais vê-lo em breve, os netos eram muito novos pra entender que não veriam mais o avô em pouco tempo. A conversa seguia até que o velho arqueólogo chamou o mais velho dos filhos para perto e susurrou em seu ouvido toda a história sobre aquela pequena menina.

- Filho, te diria onde minha maleta está, mas não consigo lembrar onde a coloquei. Procure-a e se pergunte novamente se sou louco. - Finalizou o arqueólogo.

Nunca havia levado as histórias de seu pai a sério, mas por ser o último desejo dele, prometeu que iria em busca da maleta, e torceria para que estivesse errado quanto ao julgamento que sempre teve de seu próprio pai.

Nascer, crescer, envelhecer e morrer. É o ciclo natural de todas as coisas que existem nesse doce planeta Terra. O velho decidiu fechar os olhos pela última vez por um considerável período de tempo.

- Envelheceu e me deve muitas respostas. - Sim, esse foi o último pensamento daquele velho enquanto encarava alguem que ninguém mais conseguia ver ou sentir.

Passou seus ultimos minutos assim, pensando em que perguntas poderia fazer. Pensou e pensou...
até que as lágrimas predominaram em toda a sala. Seu ciclo estava completo.

...

sexta-feira, julho 13, 2012

Dia


Era um dia daqueles que os olhos não parecem olhos, estão mais para algum tipo de nascente. Era um dia que se percebia o quão apaixonado está o Sol pela Lua. Um dia que os pássaros cantavam uma melodia não muito comum que fortalecia lembranças. Não era um dia bonito, não era feio, era estranho, esquisito, assim, incomum mesmo. Bom, ruim, sabe-se lá o que achar de dias assim. Noites...

E com a pouca luz que o Sol mandava, percebiam-se estrelas em todo o céu. E as tais estrelas lembravam olhares que há tempo não são vistos. Não estava claro, não estava escuro, luminosidade suficiente para apreciar constelações, observar vaga-lumes e lembrar de coisas que já foram/são importantes. Não era necessário muito, apenas, caíam as pálpebras e os olhos se fechavam. Tudo calmo agora.

Agora, um vaga-lume, devagar vagava, divagava, voava em devaneios, chorava sem motivo e com toda a razão. A vaga que mais quis se foi, pode voltar, mas não sabe onde guardou a fé nisso. Não seca os olhos, sabe que não adianta, ficarão molhados novamente. Não segura as lágrimas, queria pode ignorar tudo com os outros fazem, não consegue, tem o coração sensível demais, encontra-se aos prantos com alguma frequência. Julgava-se forte, e percebe que sempre esteve enganado.

Madrugadas, voltaram a ser solitárias, ainda está se reacostumando a isso. Voltou a olhar o céu e jogar palavras no papel. Voltaram as histórias tristes de outros tempos, sua origem, sua inspiração. Tornou-se novamente aquele homem solitário da noite, inspirado por histórias diferentes. Assobia e não obtem resposta, assobia e lembra das pequenas frutas, assobia, abre os olhos e nao consegue ver nada.

Alimentou-se de ilusões, acreditou que conseguiria, e hoje alimenta-se de esperanças pequenas, tem fé em coisas improváveis. É uma pequena luz apaixonada por uma luz ofuscante, um vaga-lume apaixonado pelo Sol. E tudo que esse vaga-lume quer é virar Lua e deixar o platonismo de lado. Assim, desejo-lhe uma boa sorte.

segunda-feira, junho 18, 2012

Infinito

Dentre as incompreensões humanas, podemos falar do infinito. Sabe-se que é algo muito grande, mas quão grande seria o tal? Não se sabe, não há como saber. O infinito cresce junto com a imaginação, não havendo limites para esta, o limite daquele também se torna impossível. Poderia falar mais, contudo, não vejo razões para debater a incompreensão. Porém, quem sou eu para decidir o que debater? Eu sou apenas uma criança que teve suas definições sobre algumas coisas alteradas completamente de um tempo pra cá. Achei que sabia o que era a felicidade, mas nunca na minha vida me senti tão feliz quanto quando estou ao seu lado, pensei conhecer a saudade e notei que nunca soube o que era saudade até ficar algumas horas sem poder ouvir sua voz, algumas horas sem poder olhar diretamente em seus olhos, enfim, alguns míseros minutos depois que se ausentasse. Você não seria capaz de entender o que eu sinto, eu queria que pudesse, mas não pode. Com você longe, a saudade é descomunal, algo que não consigo explicar. Agora, estar perto de você, a alegria, a felicidade, também são incompreensíveis, porque elas variam de acordo com a imaginação, elas se encaixam perfeitamente na definição de infinito.

quinta-feira, junho 14, 2012

Bagunça

É tudo uma bagunça, é tudo um tumulto e tá tudo arrumadinho. Aqui, ali e todo lugar. Arruma ali, ajeita aqui e, olhem, são pessoas arrumadas. Sorrisos lindos, fotos, sabe-se lá o que vão fazer. Batem asas rumo à diversões efêmeras, vai entender. Estão juntas, negam a natureza da solidão humana, bom ver coisas assim. Estão ajeitadas, mas seus cérebros, poluídos. Não se importe, estão belos, o que mais tem importância? Deixem-lhes semear o pseudo-amor que tomou conta de todos. Colírios e látex, pra que combinação melhor? Estão certos, porém...
Bom......
Prefiro manter-me na minha bagunça.

terça-feira, junho 12, 2012

Vaga-lumes [3]

Esquisito, não era acostumado a dividir momentos como aqueles com outras pessoas. Na verdade, não dividia nada com ninguém, não confiava em ninguém.Salvo algumas raras exceções no decorrer da vida, sentia a língua presa ao falar com outros humanos, não conseguia, não saía uma palavra sequer da sua boca. E agora, há uma estranha ao seu lado e... ela gosta de vaga-lumes? Era uma bela estranha, ou pelo menos parecia ser. Era uma situação d..
- O que fazes aqui a essa hora?
- Não sei ao certo, alguma coisa me atormenta, não consigo dormir, decidi vir aqui como faço em situações assim.
- Menino, és estranho.
- Estranho... todos somos um pouco.
- Verdade. E o que te incomodas a ponto de tirar-te o sono?
- Não sei. Padeço por coisas que não acontecem, que poderiam ter acontecido.
- Sofres por antecipação, isso está errado.
- Talvez esteja, mas criar expectativas sobre certas coisas é inevitável.
- Estás certo mais uma vez.
- E tu, que fazes aqui?
- Queria ver esses pequenos insetos. São minha paixão
- São belos, não julgam, te ajudam. Fazes bem ao amá-los.
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- Menino, gostei de ti. Está tarde, devo ir. Amanhã te vejo aqui?
- . . .

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